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Inverno

O saborear dos dias... com maior deleite e meticuloso vagar.

Inverno

A Fábula da Convivência

11.10.18 | Maria Rocha Soares

 

 

 

 

Schopenhauer expôs esse conceito em forma de parábola na sua obra ‘Parerga und Paralipomena’, publicada em 1851, onde reuniu várias de suas polémicas anotações filosóficas. O dilema do porco-espinho é apenas um parágrafo que surge no Volume II desta obra, no entanto, tornou-se um conto popular com inúmeras versões, citado até mesmo por Sigmund Freud, o pai da psicanálise.

 

 

Excerto de Schopenhauer:

“Uma sociedade de porcos-espinhos se juntou em um frio dia de inverno e para evitar o congelamento procuraram se esquentar mutuamente. Contudo, logo sentiram os espinhos uns dos outros, o que os fez voltarem a se separar. Quando a necessidade de calor os levou a aproximar-se outra vez, se repetiu aquele segundo mal; de modo que oscilaram de um lado para o outro entre ambos os sofrimentos até que encontraram uma distância média na qual puderam resistir melhor.”Arthur Schopenhauer, in “Parerga und Paralipomena”. Zurique: Haffmans, 2 vols, 1988, p. 559-60.

 

 

A Fábula da Convivência

Durante uma era glacial muito remota, quando parte do globo terrestre estava coberto por densas camadas de gelo, muitos animais não resistiram ao frio intenso e morreram, indefesos, por não se adaptarem às condições de clima hostil.

Foi então que uma grande manada de porcos-espinhos, numa tentativa de se proteger e sobreviver, começou a se unir, ajuntar-se mais e mais. Assim, cada um podia sentir o calor do corpo do outro. E todos juntos, bem unidos, agasalhavam-se mutuamente, aqueciam-se enfrentando por mais tempo aquele inverno tenebroso.

Porém, vida ingrata, os espinhos de cada um começam a ferir os companheiros mais próximos, justamente aqueles que lhes forneciam mais calor vital, questão de vida ou morte. E afastaram-se, feridos, magoados, sofridos. Dispersaram-se por não suportar mais tempo os espinhos de seus semelhantes.

Doía-lhes muito…

Mas essa não foi a melhor solução. Afastados, separados, logo começaram a morrer.

Os que não morreram voltaram a se aproximar, pouco a pouco, com jeito, com precauções, de tal forma que, unidos, cada qual conservava uma certa distância do outro, mínima, mas o suficiente para conviver sem ferir, para sobreviver sem magoar, sem causar nenhum dano recíproco.

Assim suportaram-se resistindo à era glacial. Sobreviveram.

 

É fácil trocar palavras, difícil é interpretar o silêncio!
É fácil caminhar lado a lado, difícil é saber como se encontrar!
 É fácil beijar o rosto, difícil é chegar ao coração!
 É fácil apertar as mãos, difícil é reter o seu calor!
 É fácil sentir o amor, difícil é conter a sua torrente!

 

“Todos nós somos anjos de uma asa só e, para voarmos precisamos estar abraçados uns aos outros.”

 António Carlos Caio Viegas

 

Fonte: Revista Prosa, Verso & Arte